quinta-feira, 24 de julho de 2008

Indústrias criativas

As indústrias criativas são a "visão" para revitalizar o Norte de Portugal
Estudo para o desenvolvimento de um “cluster” criativo na região norte é hoje apresentado na Fundação de Serralves
O Norte deverá apostar em tornar-se na região criativa de Portugal - é esta "a visão" e o desafio lançado pelos consultores britânicos Tom Fleming e Charles Landry, nas conclusões do estudo que elaboraram para o desenvolvimento de um “cluster” de indústrias criativas na região norte, que hoje de manhã será apresentado na Fundação de Serralves, no Porto.
"A região norte de Portugal enfrenta sérios constrangimentos que ameaçam a sua competitividade e a sua capacidade de recuperar dinâmicas de produção de riqueza, mas tem em si os recursos, os agentes e a energia de que necessita para o fazer com sucesso", dizem os autores deste estudo-radiografia, sobre o qual elaboram uma estratégia e um ambicioso plano de acção tendo em vista "o reforço da massa crítica do capital criativo da região".
O plano de acção tem três eixos estratégicos: apostar na capacidade criativa, no planeamento e definição de políticas e em tornar atractivos os lugares criativos, enumera o estudo. O documento aponta também a necessidade de criação de uma estrutura autónoma de governação - chama-lhe Agência para o Desenvolvimento Criativo do Norte de Portugal - que deverá ser participada pelos principais agentes do território e mobilizar a iniciativa privada.
Tom Fleming e Charles Landry são reconhecidos especialistas internacionais no estudo das indústrias criativas e da sua importância para a revitalização de cidades deprimidas. O consórcio Tom Fleming Creative Consultancy foi o escolhido pela Fundação de Serralves, que liderou uma parceria em que também intervêm a Casa da Música, a Sociedade de Reabilitação Urbana da Baixa Portuense e a Junta Metropolitana do Porto, todos respondendo a um desafio lançado pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), à procura da tal "visão" inovadora para ajudar ao desenvolvimento desta região.Odete Patrício, directora-geral de Serralves, justifica a opção pelo consórcio de Fleming com a sua experiência "muito ligada ao terreno". Numa conferência apresentada no Porto no início de Fevereiro, quando o lançamento do estudo foi anunciado, Fleming citou o exemplo da cidade inglesa de Sheffield na década de 1980. A aposta nas indústrias criativas ajudou Sheffield a sair da crise em que a decadência da indústria da metalurgia a tinha então mergulhado.
No estudo agora feito para a região Norte, os autores fizeram incidir a sua atenção no centro histórico e na Área Metropolitana do Porto, e também nas cidades universitárias envolventes, como Braga, Guimarães, Vila Real e Aveiro.
As duas primeiras são as que, na opinião de Fleming e Landry, apresentam "a dimensão e o carisma capazes de potenciar" as indústrias criativas: pela importância dos centros de investigação e desenvolvimento da Universidade do Minho, pela classificação patrimonial pela UNESCO do centro histórico de Guimarães e pela oportunidade que o acolhimento da Capital Europeia da Cultura em 2012 cria de "estabelecimento de um compromisso a longo termo e assumindo-se como representante do potencial criativo da região e das suas indústrias criativas".
O estudo centra-se sobretudo no centro histórico e área metropolitana do Porto e em cidades como Braga ou Aveiro
Jornal Público - 23.07.2008, Sérgio C. Andrade

quinta-feira, 12 de junho de 2008

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Richard Florida

Esteve recentemente em Portugal um dos individuos mais influentes na concepção das cidades criativas.
Na altura identificou os três T's (Tecnologia, Talento e Tolerância) como factores determinantes para ascender ao ranking das mega-regiões: regiões que acolhem actividades económicas em larga escala e geram a maior percentagem de actividade económica e inovações científicas e tecnológicas, a nível mundial.
Dos 191 países do mundo, só existem 40 mega-regiões que impulsionam a economia mundial: estas representam um quinto da população, dois terços do rendimento económico mundial e mais de 85 por cento da inovação global. A Grande Lisboa está em 33.º lugar na lista encabeçada pela Grande Tóquio, mas poderá ir mais longe, segundo o economista norte-americano.
«A única coisa que vos está a travar é a mentalidade. Portugal tem sido aprisionado por uma mentalidade antiquada», declarou à Lusa, à margem da conferência organizada pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR-LVT) e pela Ordem dos Economistas.
Richard Florida antevê um futuro promissor para Lisboa, que já está em fase de transição e atrai classes criativas, mas salientou que é preciso valorizar mais a tolerância e a liberdade de expressão individual (self-expression).
Richard Florida é autor do best-seller The Rise of the Creative Class (A ascensão da classe criativa) e lançou recentemente Who's Your City (Quem é a tua cidade) onde sugere que a escolha do lugar onde vivemos pode ser uma decisão tão importante como escolher um parceiro ou um emprego.
O economista advoga o surgimento de uma classe criativa, associada a sectores com grande capacidade de inovação, e associa o desenvolvimento e êxito das cidades à sua capacidade de atrair esta classe emergente.
Tudo se passa numa sociedade em que o crescimento económico já não é sustentado pela criação de postos de trabalho, nem pelo desenvolvimento de clusters suportados pela indústria tradicional ou pelas tecnologias de ponta.

quinta-feira, 27 de março de 2008

terça-feira, 4 de março de 2008

PORTUGAL

PORTUGAL em 1896

«Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso de alma nacional - reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta (...)
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados (?) na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira e da falsificação, da violência e do roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro (...)
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este, criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do país, e exercido ao acaso da herança, pelo primeiro que sai dum ventre - como da roda de uma lotaria (...)
A justiça ao arbítrio da política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas (...)
Dois partidos (...) sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, (...) vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento - de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar»

GuerraJunqueiro
in Pátria
(gentilmente enviado pelo amigo antónio)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Agentes culturais exigem valorização da cultura na cidade

O Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV) reuniu ontem diversos produtores culturais, que debateram a relação da cidade com a cultura. Os elementos consideraram que existe oferta cultural de qualidade, mas falta uma política da autarquia na área
«Estamos aqui em defesa dos que fazem cultura em Coimbra», começou por dizer Abílio Hernandez, moderador do debate, perante um público que preencheu quase todos os lugares do TAGV. O debate subordinado ao tema “Cidade, arte e política – o valor estratégico da cultura” debateu o papel da cultura na cidade e foi organizado pelos assinantes do manifesto “Pelo direito à cultura e pelo dever de cultura”, apresentado no passado mês de Janeiro.
O ex-presidente da “Coimbra Capital Nacional da Cultura 2003” defendeu que existe oferta cultural na cidade, mas acusou a Câmara Municipal de Coimbra (CMC) de não desenvolver uma política na área. «A autarquia tem mesmo uma política anti-cultural. Gostaríamos que a câmara estivesse aqui, mas não está, e não é fácil manter um diálogo com uma parede», acrescentou.
O professor universitário e ex-director do TAGV salientou que os agentes culturais «fazem um serviço público à sociedade, como um médico ou um padeiro». «As cidades são cada vez mais iguais e é a cultura que as distingue uma das outras», apontou.
O professor e economista José Reis foi o segundo a intervir. «A CMC ambiciona a pacatez e por isso Coimbra está a desperdiçar o potencial que tem na cultura», afirmou. O ex-secretário de Estado do Ensino Superior falou sobre a relação profunda entre metrópoles e as manifestações culturais. «Cada vez mais as actividades culturais são uma fonte de conhecimento e emprego das cidades», observou. «O papel de Coimbra no país está ameaçado, as políticas públicas são desfavoráveis e a imagem que projectamos de nós próprios e das nossas instituições não é a melhor», disse. Para o economista, «a cultura não é um problema, mas parte da solução da requalificação das cidades».
Já José António Bandeirinha, pró-reitor para a Cultura da Universidade de Coimbra, deu como referência o exemplo espanhol: «Lá, as mesmas pessoas que estão no campo de futebol e na praça de touros estão nos grandes halls culturais. Não há cultura de oposição, há oferta e as pessoas vão a tudo». «Em Coimbra a cultura tem de ser integrada na política da cidade, não pode ser vista como um lixo», explicou.
O painel de oradores foi completado pela socióloga Paula Abreu, que considerou que em Portugal as práticas culturais «estão limitadas por aquilo que é difundido pela televisão e rádio» e acusou a CMC de ter «medidas desarticuladas, sem qualquer política na cultura».
A professora universitária alertou que «as autarquias locais não podem atirar a responsabilidade para o Estado» e considerou que Portugal «está alheado e fechado ao debate cultural há muito tempo».O encontro contava inicialmente com a presença de Manuel Maria Carrilho, mas o deputado socialista e ex-ministro da Cultura esteve ausente devido a doença. António Pedro Pita, director Regional da Cultura do Centro, também esteve ausente, devido a uma reunião em Lisboa.
Debate muito participado
Os cidadãos de Coimbra (principalmente pessoas ligadas à universidade e a instituições culturais) foram sensíveis ao debate de ontem e marcaram presença em peso no Teatro Académico de Gil Vicente. As posições em torno da relação da cidade com a cultura foram diversas.
Ana Pires, ex-delegada do Ministério da Cultura em Coimbra e presidente da ProUrbe,
Apelou para «a resolução de conflitos em matéria cultural, como aqueles que envolvem espaços como o Teatro da Cerca de São Bernardo, o Centro de Artes Visuais ou o Museu de Transportes». «Queremos que os planos financeiros também sejam cumpridos pela câmara», apelou.
Claudino Ferreira, professor da Faculdade de Economia da UC, considerou que a cultura «tem um valor próprio antes de ter um valor estratégico» e concluiu que «quem lida com a cultura na cidade, como a autarquia, gosta pouco da cultura».
Já Luís Reis Torgal, professor catedrático na Faculdade de Letras, afirmou que o documento “Pelo direito à cultura e pelo dever de cultura” devia ter sido «mais amplo e consensual». «Esta cidade bate-se muito pouco pela cultura. Matou-se o [cine-teatro] Sousa Bastos e o Avenida e criaram-se centros comerciais», apontou.
Luís Quintães contestou o facto de a mesa de oradores ser constituída na íntegra por professores universitários. «Dá ideia que a cultura erudita se quer impor à popular, à que vem do povo», protestou.
Durante o período de debate, Abílio Hernandez foi questionado sobre o facto de o relatório de “Coimbra Capital Nacional da Cultura 2003” nunca ter sido revelado publicamente. O ex-director do evento defendeu-se, afirmando que foi entregue ao ministro da Cultura (na altura Pedro Roseta). «Não compete a mim publicar o relatório. Eu nem sei bem se o ministro de então ou se algum ministro da Cultura o leu. Nunca fui chamado a discutir o relatório e se calhar não teve importância nenhuma para ninguém», ironizou.
O Diário de Coimbra procurou entrar em contacto com o vereador da Cultura da CMC, Mário Nunes, para obter reacções às críticas feitas à autarquia durante o debate, mas tal não foi possível.
Depois do manifesto e do debate…Que futuro?
Isabel Craveiro, da direcção do Teatrão, apelou a que o manifesto “Pelo direito à cultura e pelo dever de cultura” e o debate ontem realizado tivessem seguimento.«Somos responsáveis por uma política cultural e não podemos ficar à espera que a câmara o faça. Lanço o desafio para que se façam propostas concretas para uma política na área da cultura», disse. A responsável apelou à articulação entre estruturas culturais e sugeriu a formação de grupos de trabalho, onde se juntariam instituições ligadas a todo o tipo de manifestação cultural.
O moderador do debate, Abílio Hernandez, não partilhou a mesma opinião, considerando que «não se pode exigir que os agentes culturais façam uma política cultural, mas pode exigir-se à câmara que o faça».Após o encontro, Abílio Hernandez afirmou que, para já, não estão programadas mais iniciativas. «Os agentes culturais não têm que ser governantes da cultura, não queremos substituir o papel da câmara, procuramos antes que ela assuma responsabilidades», disse.

21 de fevereiro 2007
Bruno Vicente
Diário de Coimbra

Câmara de Coimbra acusada de ser um obstáculo à produção cultural na cidade


Iniciativa Amigos da Cultura 2008 juntou cerca de 400 pessoas no Teatro Académico de Gil Vicente. Concluíram que a cultura também precisa de cidadãos mobilizados.

Agentes culturais da cidade de Coimbra e os promotores da iniciativa Amigos da Cultura 2008 acusaram ontem a Câmara Municipal de Coimbra de ser um obstáculo à criação artística e de desvalorizar o papel da cultura no desenvolvimento da cidade.No colóquio Cidade, Arte e Política, que juntou cerca de 400 pessoas no Teatro Académico de Gil Vicente, Abílio Hernandez, ex-presidente da Coimbra Capital da Cultura, acusou mesmo os responsáveis autárquicos de promoverem uma política "anticultural". "Há cultura em Coimbra, apesar da câmara municipal. A câmara não só não age como entidade promotora como se assume como agente destruidor de projectos e de dinâmicas. E por isso temos o direito de protestar", afirmou.
Depois do lançamento do movimento Amigos da Cultura através de um blogue, o colóquio de ontem tinha por objectivo discutir o valor estratégico da cultura nas cidades. O ex-ministro da Cultura Manuel Maria Carrilho era um dos oradores convidados, mas acabou por não marcar presença devido a "problemas de saúde", justificou Abílio Hernandez.
José Reis, economista e docente da Universidade de Coimbra, defendeu que actividades emergentes relacionadas com as indústrias criativas são "fonte de conhecimento, de riqueza e de emprego", algo que Coimbra "não tem sabido aproveitar". "E, neste campo em concreto, a câmara é uma entidade causadora de problemas. É uma entidade que não se dá bem com a contradição", afirmou.
José Reis acrescentou ainda que Coimbra sofre hoje "múltiplas ameaças" devido a "políticas públicas que lhe são hostis", mas acrescentou que os cidadãos da cidade devem também assumir-se como "parte do problema". "A imagem que projectamos da cidade e das nossas instituições não é a melhor", concluiu.Ana Pires, presidente da associação cívica Pró-Urbe, acrescentou que a cidade também não se tem mobilizado devidamente para lutar pela cultura. "Nós permitimos que acabassem os Encontros de Fotografia. E isto é um escândalo. Nós permitimos que maltratassem A Escola da Noite. E isto é um escândalo. Nós deixamos que maltratem o que a nossa cidade tem de melhor", criticou. "O vereador da Cultura é muitas vezes responsabilizado pelo estado caótico do sector, mas o principal responsável político é o presidente de câmara", declarou.Apesar de partilhar parte das críticas feitas à actuação da câmara na área da cultura, Isabel Craveiro, de O Teatrão, sugeriu que os Amigos da Cultura formulassem também propostas à autarquia para alterar a situação. "Nós também somos responsáveis pela política cultural na cidade", afirmou. No final, Abílio Hernandez não se mostrou nada confiante na possibilidade de diálogo. "Não é fácil dialogar com uma parede, com quem tem uma visão instrumental da cultura. Se há alguma forma de classificar a política cultural desta câmara, eu diria que ela se rege pela mais enciclopédica das ignorâncias", declarou.
21.02.2008, André Jegundo
Jornal Público

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Semana Cultural da UC

Imaginação dá mote para criação artística «Transformar o comum em extraordinário» e revelar «a cultura como o caminho para a felicidade» são os objectivos principais do evento, que este ano explora o mundo da imaginação enquanto abrigo de universos artísticosDe 1 a 8 de Março, Coimbra vai reunir artes plásticas, música, teatro e cinema, mas também colóquios, exposições e workshops. «Queremos que a iniciativa seja uma experiência de cruzamento entre criadores e públicos e que a universidade dê mais um passo para se mostrar à cidade», adiantou ontem o pró-reitor para a Cultura, José António Bandeirinha, na apresentação do programa da X Semana Cultural da Universidade de Coimbra (UC). Para António Bandeirinha vai ser «um desafio explorar a forma como utilizamos a imaginação e a criatividade para nos integrarmos e integramos os outros». O docente explicou que a semana cultural é sempre um evento que pretende dar dinâmica à cidade, «cruzando iniciativas internas e externas, bem como artistas nacionais e internacionais».O tema de 2008 está subordinado ao universo da imaginação como abrigo da criação cultural. Pela primeira vez o evento tem um assessor de programação. Giacomo Scalisi referiu que o importante «não é apenas programar espectáculos e convidar artistas a partilhar saberes». «É principalmente perguntar porque estamos a fazer tudo isto e qual é o nosso objectivo», explicou.
A organização está a apostar forte na participação do público e pretende que «as pessoas de Coimbra se sintam parte activa do evento». «Queremos ver as artes a entrar na cidade e a dialogar com as gentes que nela habitam», disse. Giacomo Scalisi realçou ainda que a interacção artística entre a semana cultural e Coimbra é relevante porque possibilita «momentos de troca» que levam à felicidade. «É importante porque as pessoas quando estão felizes olham o mundo de outra maneira e reparam em coisas que não viam antes». «Nós apostamos na cultura como o caminho para a felicidade», disse.«Movimentar as artes, chamar o artista de longe com a sua maneira de pensar e possibilitar um encontro entre as pessoas de Coimbra» são outros aspectos que o programador teve em conta para a criação da agenda da X Semana Cultural da UC.Programação “vasta e criativa” revela mundo do insólitoPara além do programador Giacomo Scalisi, a coreógrafa Madalena Victorino também integra a organização do evento. A responsável levantou o véu sobre as iniciativas principais que a cidade vai receber. “Caruma” reúne bailarinos e músicos, num projecto de arte comunitária que pretende colocar o público em contacto com o espaço físico que habita. As actuações têm início com sete elementos, mas o objectivo passa por alargar a participação a dezenas de pessoas do público. A iniciativa “Lembranças” combina teatro e dança e acontece nas ruas de Coimbra. «São espectáculos miniaturas onde, de repente, passa-se de uma situação da realidade para o mundo do insólito», explicou Madalena Victorino.O espectáculo musical «Auprès de ma blonde» também foi destacado na cerimónia de apresentação do programa cultural. Um percussionista e três músicos de instrumentos de sopro vão misturar música de circo e música popular com teatro e muito improviso. Segundo a organização, trata-se de «uma fanfarra de bolso cheia de momentos hilariantes, nascida na rua e alimentada por ela, aberta a tudo, que se instala para redescobrir dias de festa».Madalena Victorino vê a arte «como o caminho para a felicidade». «A arte tem a capacidade de fazer o comum ser extraordinário e, sem ser pretensiosa, é isso que queremos fazer com esta semana cultural», concluiu a coreógrafa.Para além do teatro e da música, a iniciativa desdobra-se em exposições, colóquios, debates e formações em torno do tema da imaginação artística, num programa cultural que inclui mais de 50 eventos. Reitoria e as faculdades da Universidade de Coimbra, através de professores e de núcleos de estudantes, as secções culturais da Associação Académica de Coimbra e organismos autónomos são as principais entidades projectoras da semana cultural, que conta ainda com a participação de grupos estrangeiros.
A décima edição da semana cultural inclui o dia aberto da universidade e a sessão solene comemorativa do 718.º aniversário da instituição, onde será entregue o prémio Universidade de Coimbra ao cientista José Epifânio da Franca.
Retirado do Diário de Coimbra

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Empresas Criativas

A Fundação de Serralves apresentou ontem no Porto o seu projecto INSerralves, uma incubadora que se destina a acolher negócios com base em capacidades criativas e inovadoras. A ideia, segundo os responsáveis da fundação, é disponibilizar a 12 profissionais, constituídos em sociedade, das áreas da arquitectura, tecnologias da informação, design, vídeo, fotografia, produção artística, cinema, produção de conteúdos e outras, um espaço onde possam montar o seu negócio. Para integrar o INSerralves, os empresários devem candidatar-se a partir do dia 14 e até 14 de Janeiro, enviando a descrição das ideias/projectos, detalhando as suas múltiplas dimensões, com particular relevo para as componentes criativas, diferenciadoras e de negócio. A Área Metropolitana do Porto, a Casa da Música e a Porto Vivo - Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU) são parceiros deste projecto, que conta ainda com o apoio do IAPMEIe é co-financiada pelo Programa Operacional da Região Norte.
Para mais informações consultem o seguinte endereço:

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

O SILÊNCIO DAS SEREIAS

Assim se prova que mesmo os meios mais insuficientes,
infantis, podem servir para nos salvar.


Para se defender das sereias, Ulisses tapou os ouvidos com cera e fez-se acorrentar ao mastro do navio. Naturalmente, todos os viajantes poderiam ter feito o mesmo (a não ser aqueles a quem as sereias atraíam à dis­tância), mas o mundo inteiro sabia que era um meio inútil. O canto das sereias atravessava tudo e a paixão dos seduzidos seria capaz de rebentar mais do que as correntes e o mastro. Mas Ulisses não pensou nisso, embora talvez tivesse ouvido falar destas coisas, confiou plenamente na cera e no molho de correntes. Cheio da alegria inocente que lhe davam os seus pequenos meios, foi ao encontro das sereias.
As sereias têm no entanto uma arma mais terrível ainda que o canto: o seu silêncio. Apesar de nunca ter acontecido, é possível imaginar que alguém escapasse aos seus cantos; mas do seu silêncio, sem dúvida que não. Nada há na terra que possa resistir tocado da sensação de as ter vencido com as próprias forças e da vaidade que dela resulta.
E, de facto, quando Ulisses passou, as terríveis cantoras não cantaram. Ou porque pensaram que este adversário só podia ser vencido pelo silêncio, ou porque a grande alegria no rosto de Ulisses, que só pensava na cera e nas correntes, as fez esquecer todos os cantos.
Ulisses, contudo, se é que assim se pode exprimir, não ouviu o seu silêncio; pensou que elas cantavam e que ele estava protegido contra o perigo de as ouvir. Por um instante, viu como elas mexiam o pescoço, a respiração profunda, os olhos em lágrimas, a boca entreaberta e pensou que tudo isto acompanhava as melodias que, em volta, ecoavam inauditas. Mas de imediato tudo se desvaneceu dos seus olhos fixos na distância, as sereias esfumaram-se do seu horizonte e precisamente quando mais perto delas esteve é que nada mais soube delas.
Mas elas, mais belas que nunca, estiravam-se, contorciam-se, soltavam ao vento os cabelos húmidos e abriam as garras contra os rochedos. Já não queriam seduzir, queriam apenas fixar, o mais demoradamente possível, o brilho dos grandes olhos de Ulisses.
Se as sereias tivessem consciência, teriam desaparecido naquele dia. Mas permaneceram e Ulisses escapou-se-lhes.
A tradição acrescenta ainda um comentário à história. Diz-se que Ulisses era tão astuto, tão raposa ladina, que nem a deusa do destino era capaz de lhe ler a alma. Talvez ele soubesse, ainda que isto seja inconcebível ao entendimento humano, que as sereias estavam em silêncio e tivesse feito do seu fingimento um escudo contra os deuses e contra elas.»

Franz Kafka, “Das Schweigen der Sirenen”, tradução de Marco Alexandre Rebelo in O Espaço sem Volta, Lisboa, FCSH-Universidade Nova de Lisboa, 2005, pp. 62-64.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Uma Campanha Alegre

Há em Portugal quatro partidos: o Partido Histórico, o Regenerador, o Reformista, e o Constituinte. Há ainda outros, mas anónimos, conhecidos apenas de algumas famílias. Os quatro partidos oficiais, com jornal e porta aberta para a rua, vivem num perpétuo antagonismo, irreconciliáveis, latindo ardentemente uns contra os outros de dentro dos seus artigos de fundo. Tem-se tentado uma pacificação, uma união. Impossível! eles só possuem de comum a lama do Chiado que todos pisam e a Arcada que a todos cobre. Quais são as irritadas divergências e princípios que os separam? — Vejamos:
O Partido Regenerador é constitucional, monárquico, intimamente monárquico, e lembra nos seus jornais a necessidade da economia.
O Partido Histórico é constitucional, imensamente monárquico, e prova irrefutavelmente a urgência da economia.
O Partido Constituinte é constitucional, monárquico, e dá subida atenção à economia.
O Partido Reformista é monárquico, é constitucional, e doidinho pela economia!
Todos os quatro são católicos.
Todos os quatro são centralizadores.
Todos os quatro têm o mesmo afecto à ordem.
Todos os quatro querem o progresso, e citam a Bélgica.
Todos os quatro estimam a liberdade.
Quais são então as desinteligências? — Profundas! Assim, por exemplo, a ideia de liberdade entendem-na de diversos modos.
O Partido Histórico diz gravemente que é necessário respeitar as liberdades públicas. O Partido Regenerador nega, nega numa divergência resoluta, provando com abundância de argumentos que o que se deve respeitar são — as públicas liberdades.
A conflagração é manifesta!


Na acção governamental as dissensões são perpétuas. Assim o Partido Histórico propõe um imposto. Porque, não há remédio, é necessário pagar a religião, o exército, a centralização, a lista civil, a diplomacia... — Propõe um imposto.
«Caminhamos para uma ruína! — exclama o presidente do Conselho. — O défice cresce! O País está pobre! A única maneira de nos salvarmos é o imposto que temos a honra, etc....»
Mas então o Partido Regenerador, que está na oposição, brame de desespero, reúne o seu centro. As faces luzem de suor, os cabelos pintados destingem-se de agonia, e cada um alarga o colarinho na atitude dum homem que vê desmoronar-se a pátria!
— Como assim! — exclamam todos — mais impostos!?
E então contra o imposto escrevem-se artigos, elaboram-se discursos, tramam-se votações! Por toda a Lisboa rodam carruagens de aluguel, levando, a 300 réis por corrida, inimigos do imposto! Prepara-se o xeque ao Ministério histórico… Zás! cai o Ministério histórico!
E ao outro dia, o Partido Regenerador, no poder, triunfante, ocupa as cadeiras de São Bento. Esta mudança alterou tudo: os fundos decresceram mais, as transacções diminuíram mais, a opinião descreu mais, a moralidade pública abateu mais — mas finalmente caiu aquele Ministério desorganizador que concebera o imposto, e está tudo confiado, esperando.
Abre a sessão parlamentar. O novo Ministério regenerador vai falar.
Os senhores taquígrafos aparam as suas penas velozes. O telégrafo está vibrante de impaciência, para comunicar aos governadores civis e aos coronéis a regeneração da Pátria. Os senhores correios de secretaria têm os seus corcéis selados!
Porque, enfim, o Ministério regenerador vai dizer o seu programa, e todo o mundo se assoa com alegria e esperança!
— Tem a palavra o Sr. Presidente do Conselho.
— O novo presidente: «Um Ministério nefasto (apoiado, apoiado! — exclama a maioria histórica da véspera) caiu perante a reprovação do País inteiro. Porque, Senhor Presidente, o País está desorganizado, é necessário restaurar o crédito. É a única maneira de nos salvarmos...»
Murmúrios. Vozes: Ouçam! Ouçam!
«… É por isso que eu peço que entre já em discussão… (atenção ávida que faz palpitar debaixo dos fraques o coração da maioria…) que entre em discussão — imposto que temos a honra, etc. (apoiado, apoiado!)»
E nessa noite reúne-se o centro histórico, ontem no ministério, hoje na oposição. Todos estão lúgubres.
— «Meus senhores — diz o presidente, com voz cava. — O País está perdido! O ministério regenerador ainda ontem subiu ao poder e doze horas depois já entra pelo caminho da anarquia e da opressão propondo um imposto! Empreguemos todas as nossas forças em poupar o País a esta última desgraça! Guerra ao imposto!...»
Não, não! com divergências tão profundas é impossível a conciliação dos partidos.

Eça de Queirós, Uma Campanha Alegre
(Enviado por Marco Rebelo)

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Porquê relacionar a criatividade com as cidades?

Historicamente as cidades sempre necessitaram da criatividade para funcionarem como mercados, locais de troca e centros de produção, com a sua massa crítica de empreendedores, artistas e intelectuais, estudantes, administradores e correctores. As cidades foram essencialmente os locais onde diferentes raças e culturas se misturaram permitindo com a sua interacção criar novas ideias, artefactos e instituições, ao mesmo tempo que permitiram às pessoas o espaço para que vivessem as suas ideias, necessidades, aspirações, sonhos, projectos, conflitos, memórias, ansiedades, amores, obsessões e medos.
Existem, no entanto, razões especiais para se pensar nos problemas actuais de uma cidade em termos criativos. Hoje, muitas das cidades do mundo enfrentam difíceis períodos de transição. As velhas industrias estão a desaparecer, o que implica que menos advém daquilo que manufacturamos e mais advém das aplicações de novos conhecimentos em produtos, processos e serviços. Os factores que antes moldavam o desenvolvimento das cidades – transportes, rios, proximidade de matérias-primas – tornaram-se menos relevantes. Ao mesmo tempo, um novo grupo de problemas tem surgido, em parte como o resultado da decadência dos antigos ritmos partilhados de vida e trabalho. Assim sendo, as alterações que surgiram nas últimas décadas e que alteraram a realidade social, tornando-a cada vez mais complexa, forçando-a, por exemplo, a lidar com problemas relacionados com ambiente, a saúde, a pobreza e a exclusão social, o crime e a insegurança, o acompanhamento do processo de globalização e da partilha de informação, que é cada vez mais rápida, necessitam de novas formas de perspectivar os problemas e de novas formas de os resolver. Num período de transição surge a necessidade de ir mais além das assunções herdadas.
Face ao exposto, podemos afirmar que a criatividade é central no pensamento das cidades neste século. Da mesma forma que as indústrias dos séculos dezanove e vinte dependiam de matérias-primas, ciência e tecnologia, as indústrias do século vinte e um dependem da formação de conhecimento através da criatividade e inovação, combinados com rigorosos sistemas de controlo. Isto tanto é verdade para empresários, negociantes envolvidos nas trocas de produtos como é para os produtores de programas de televisão, programadores de software ou mesmo empresários de teatro. Atingir o sucesso em todas estas áreas requer criatividade, interdisciplinaridade, pensamento holístico – qualidades que dependem de uma cidade que subtilmente os promova. No jogo da competição inter-urbana, ser uma base para firmas e instituições de conhecimento intensivo, como universidades, centros de investigação ou indústrias culturais, adquiriu uma nova importância estratégica. A competição futura entre nações, cidades e empresas tende a ser cada vez menos estabelecida nos recursos naturais, localização ou na reputação do passado e mais na capacidade de desenvolver imagens e símbolos atractivos e na capacidade de os projectar de uma forma efectiva. De facto, o processo de renovação urbana pode tornar-se num espectáculo, a estética veio substituir a ética no planeamento urbano contemporâneo (David Harvey, 1990)[1].
Não é surpreendente, portanto, que muitas das velhas maneiras de pensar sobre as cidades não tenham acompanhado a velocidade das mudanças. Mas a tarefa não é simplesmente substituir um conjunto de paradigmas simples por outro. Precisamos, pelo contrário, de complementar as formas de pensar que existem com novas formas de raciocínio e métodos adicionais para acompanhar e lidar com a mudança.

[1] Harvey David, 1990, The Condition of Postmodernity - An Enquiry of Cultural Change, Blackwell: Oxford.